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Mudança do modelo de financiamento das empresas

Por Mário Costa, Administrador da Believe

Nos tempos que correm ouvimos falar, várias vezes, que as empresas enfrentam muitas dificuldades porque estão com falta de liquidez. Mais do que um problema de "falta de trabalho", motivado pela diminuição do consumo interno e pela falta de aptidão para exportar, este é um dos graves obstáculos ao sucesso das empresas nacionais.

Os empresários normalmente culpam os bancos e o governo por não estarem a ajudar as empresas como deviam ou como ajudaram noutros tempos. Culpam a banca e o governo de retirar de forma abrupta os apoios que normalmente concediam, muitas vezes sem pré-aviso ou antecedência necessária por forma a estes encontrarem alternativas.
Provavelmente, estes empresários, foram mal habituados e andaram ano após ano baseados num modelo de financiamento dos seus negócios frágil, em que as empresas obtinham a liquidez necessária "à custa do dinheiro dos outros" (banca, estado, fornecedores, etc). O empresário só tinha a ideia e era fácil obter o financiamento necessário, o qual era disponibilizado de forma imediata, por diversos agentes no mercado, sem que estes analisassem com rigor a viabilidade do mesmo.
Quem deve acreditar no projeto é o seu promotor (empresário) e por que motivo não é ele seu principal financiador, uma vez que, quando as coisas correm bem, é ele quem mais ganha ou louros retira? Quando corre mal, o mais penalizado não é ele mas sim os seus credores.
O dinheiro que os seus credores ganharam ao fornecer ou apoiar a empresa não chega, na maior parte dos casos, para cobrir as perdas causadas em caso de incumprimento por parte da empresa ou, em último caso, se esta fracassar. Este modelo de financiamento era o ideal numa conjuntura favorável, quando os negócios estavam a crescer e as margens a aumentar. 
Qualquer parceiro está disposto a fornecer produtos ou financiar negócios para partilhar lucros, nunca para partilhar prejuízos. Na atual conjuntura é praticamente impossível manter este modelo de financiamento.
Os parceiros quando se apercebem que as coisas estão mal, as vendas e margens a baixar, querem sair da empresa o mais rápido possível, enquanto que, o empresário, quando se apercebe que o "navio esta a afundar", por falta de conhecimento, informação ou mal aconselhamento, "enterra" tudo o que ganhou ate aquela data na empresa, colocando inclusive em risco o seu próprio património pessoal, muitas vezes arrastando os seus familiares diretos.
O empresário deve olhar para a sua empresa de forma profissional e fria e não de forma emotiva, nunca esquecendo que na vida tudo nasce, cresce, vive e morre.
Deve saber sair quando constata que o negócio não funciona mais, não devendo insistir numa coisa que ele não acredita. Quanto mais demorar mais o problema se agrava.
A conjuntura mudou, o paradigma de financiamento das empresas foi alterado. 
Os tradicionais financiadores das PME’s nacionais (banca, estado e fornecedores) não podem mais financiar como até então o faziam.

Banca
A Banca está com grandes dificuldades em se financiar, em virtude da crise financeira de 2008 e da nota de rating "lixo" que carrega às costas. Em 2008 com a crise do subprime, que levou à falência de um banco de referência centenário - Lemon Brothers - os bancos nunca mais confiaram uns nos outros como até então, o mercado interbancário parou, tendo inclusive o estado que avalizar empréstimos de bancos portugueses para que estes se pudessem financiar. Em 2010, com o pedido de ajuda externa do estado português, o rating dos bancos portugueses, muitas vezes conotado com o rating do país, passou para "lixo". Esta notação inviabiliza o acesso da banca portuguesa aos mercados tradicionais onde se financiava.

Estado
Os empresários não podem ver o estado como fonte de financiamento como até então.
O estado português por si só não tem meios financeiros para poder ajudar as empresas, em virtude do próprio estado débil em que se encontram as contas públicas, tendo apenas à sua disposição alguns fundos da União Europeia, os quais apenas estão disponíveis para alguns setores específicos da economia, sendo que os projetos que beneficiam dos incentivos desses fundos são, regra geral, muito exigentes em termos do capital a realizar pelo próprio empresário.

Fornecedores
Habitualmente o empresário financiava o negócio corrente: crédito a clientes e stock, através do crédito dado pelos seus fornecedores, o que, normalmente, levava a que se cometessem erros na concessão de crédito aos clientes, bem como se adquirisse produtos para stock que não necessitavam e não eram de rotação, o que originava o aumento do número de "monos" nas empresas e consequente acumulação de prejuízos. 
O facilitismo provocava graves erros de gestão.

Caso prático
O fornecedor financiava  a 120/180 dias e a empresa dava  90 dias aos seus clientes.
Esta prática gerava dois problemas: dívida a fornecedores relativa a 4/5 meses de fornecimento e criação de dívida pelos clientes relativa 3/4 meses de vendas. Na prática existia negócio mas que não implicava fluxos financeiros. Se os clientes pagassem a empresa conseguia cumprir com os compromissos juntos dos fornecedores, se não pagassem esta prática criava um grave problema para a empresa, uma vez que esta deixava de ter meios líquidos para honrar os seus compromissos juntos dos fornecedores.

No cenário atual, os fornecedores alteraram as práticas de concessão de crédito, pelos motivos abaixo expostos, o que inviabiliza a que a empresa se financie juntos dos fornecedores como fazia habitualmente:
. Os Fornecedores têm dificuldade de se financiar na banca.
. Os fornecedores têm menos créditos junto dos seus próprios fornecedores. 
. As seguradoras de crédito atribuem um plafond de crédito aos clientes muito mais reduzido em virtude da recessão que assola o país, o que origina a que os fornecedores não estejam dispostos a assumir o risco de concessão de crédito a clientes que a seguradora não assuma.
O empresário ver-se-á obrigado a procurar formas alternativas de financiamento do seu negócio, baseadas em capitais próprios e recursos alheios estáveis. A dificuldade em obter estas formas de financiamento poderá ter como consequência a diminuição do investimento e da atividade de algumas empresas, bem como, em último caso, provocar o encerramento de algumas delas.
Este cenário ou esta consequência fará parte da solução e não do problema de liquidez que assola as empresas nacionais.
Uma empresa para ser financeiramente viável Só tem duas alternativas, ou o empresário tem capital suficiente para financiar grande parte do seu negócio, ou então terá de ser muito atrativa em termos de vendas, margens e resultados, para que exista um interesse efetivo nela por parte de investidores, para financiar o negócio e partilhar o risco com o empresário.

Algumas Formas alternativas de financiamento no contexto atual:
. Capital de risco
. Empréstimos de sócios
. Mercado de capitais (ações/obrigações)
. Auto financiamento
As novas alternativas de financiamento, quer por capitais próprios quer por capitais alheios, implicam uma gestão com mais rigor e disciplina.

O investimento por parte do empresário de dinheiro próprio ou o reinvestimento dos lucros obtidos levará, da sua parte, a uma gestão mais cuidada e eficiente do crédito que concede aos seus clientes, da sua política de investimento e de stockagem.  Se não o fizer corre o risco
de perder o seu próprio dinheiro, sendo que teria sempre outras alternativas de aplicação das suas poupanças com uma relação risco/remuneração de capital bem melhor.

As empresas de capital de risco normalmente colocam um seu gestor a acompanhar o dia a dia da empresa, tal facto, irá aumentar o rigor da gestão, uma vez que os empresários (promotores) percebem do negócio mas, na sua grande maioria, não têm conhecimentos profundos de práticas de gestão.

A empresa ao entrar para o mercado de capitais, passará a ser vigiada por órgãos de supervisão próprios do sistema, e terá de prestar informação com regularidade aos investidores, pelo que, obrigatoriamente, terá de apostar numa gestão mais rigorosa para que os investidores não queiram desinvestir na empresa.
Os Recursos escassos são sinónimo de práticas de boa gestão, a abundância de recursos e o facilitismo poderão levar o empresário a cometer erros de difícil resolução.
Os tempos que correm são de mudança e cada empresário deve aproveitar para corrigir as suas práticas, mudar a sua conduta, para encarar o futuro de forma risonha.

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